quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Restringiram o acesso

“Devido a interferência de usuários na via os trens estão circulando com velocidade reduzida maior tempo de parada!”.

Essa é a frase que precede o caos, trens lotados, plataformas cheias filas nas catracas, pessoas estressadas, funcionários exaustos, velhas caindo no vão entre o trem e a plataforma, pessoas comprimidas ao extremo, portas que não se fecham completamente.

A voz anônima ecoa dos altos falantes para toda estação.

“Estamos restringindo o acesso nas plataformas por medidas de segurança”
Porque!?
Logo agora!?
No horário de pico. Bem no momento em que todo mundo precisa do transporte público, única pessoa, sozinha! Tenta se matar, ou conseguiu; talvez nenhum dos dois, ou então alguém estava fazendo alguma coisa na hora e no lugar errado.

Daí vem aquela gente que diz que tudo é uma porcaria um lixo! Que deveria sair do país. E todo aquela reflexão já refletida, assuntos de bolso que todos guardam para momentos como esse.

A questão máxima é:
O que seria exatamente a interferência de usuário na via?
Numa rua onde circulam automóveis seria um pedestre tentando atravessar para o outro lado.
E numa linha de trem? Do metrô, com o terceiro trilho proximo do chão, com quase doze mil volts.

Será que esse indivíduo realmente tentou se matar?

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Pai do Prodigo

Era mais uma manhã, mais um dia sem ele, desde que se fora, passava as primeiras horas da manhã observando o horizonte o sol nascer ao fundo, para além porteira principal a entrada da fazenda.
Essas terras era de sua família a mais de 10 gerações, ele sonhava com o dia em que passaria o legado para seus dois filhos; desde que começará com o negócio de reflorestamento os valores em sua conta bancária triplicou, se quisesse viveria de juros mais 5 ou 6 gerações.

Seus olhos inquietos observava o horizonte, estático como uma fotografia nada surgia, assim começava mais um dia, todas as manhãs eram dolorosa, depois que ficará viúvo tinha se apegado demais a seus dois filhos, imaginava um futuro brilhante para cada um deles, traçava planos, sabia que eles seriam realizados, felizes, acima de tudo sabia que a fazenda continuaria em boas mão, o legado continuaria.
Ainda observando permitiu uma lágrima borrar sua visão, naquele dia completará 3 anos que seu caçula se fora, pior que saber que seu filho está morto, é não saber onde ele esta, é não saber como ele está, é respeitar a escolha sua escolha de não querer fazer mais parte da família e sumir pelo mundo.

Todos os dias quando ele não surge no horizonte é mais um dia de luto, como se recebesse a notícia de óbito do filho todos os dias, durante longos 3 anos.
Logo quando o Sol surgia voltava a suas atividades de fazendeiro, se permitia sobrecarregar de trabalho para manter a cabeça ocupada, sempre que passava pela porteira principal gastava algum tempo observando a estrada por onde ele se fora, muitas vezes teve a ilusão de velo andando devolta bem vestido, arrumado como um empresário de sucesso, com saudades da calmaria do lar. Era como uma miragem.

Nos dias de inverno ficava grudado na janela observando a porteira, durante a noite nunca dormia de fato, ficava sempre alerta a qualquer ruído corria para porta para ver o que era, na esperança de ver quem era, mas nunca era ele.
As vezes se surpreendia rindo, imaginando o dia em que o teria devolta em seus braços, imaginava a festa que daria, pensava em todos os detalhes. Alimentava os cordeiros com segundas intenções, sempre deixava um ou dois dos mais gordos de reserva caso se precisasse de uma festa de última hora.
Todas as manhãs eram iguais, deixava uma lágrima cair quando não via. Ao mesmo tempo que tinha esperança de vê-lo surgir devolta na porteira, o choque da realidade cruelmente anunciava mais um dia de luto.

Naquele dia depois do almoço o mais velho liderou uma expedição  para um setor da área de reflorestamento, o pai levou o faraó (vira-lata de estimação da fazenda) para passear, o cachorro correu para porteira e ficou latindo alto em direção da estrada, o pai foi até o cachorro e ficou pensando por que ele estava tão inquieto, latia sem parar. O sol estava forte, o ar muito seco, decidiu levar faraó para um local de sombra, quando ergueu seus olhos para o fim da estrada no horizonte viu um mendigo esfarrapado tropeçando pelo caminho,  a primeira vista não se importou muito, queria levar o cachorro para um lugar mais fresquinho, quando o resto humano pelo caminho levantou a mão e continuou andando algo lhe pareceu familiar.

Seus olhos se concentraram naquele podre homem no caminho, seu coração começou a disparar, as lágrimas começaram a pesar.

— Não pode ser — pensou em voz alta.

Se lembrou da decepção que teve quando confundiu um vendedor que chegara sem avisar, a alguns meses atrás, depois disso só atendia quem marcasse horário.
Não conseguia parar de olhar aquele vulto humano cambaleando, o faraó não parava de latir e bater as duas patas no chão, como fazia quando brincava com as crianças.
Conforme o homem se aproximava pode reconhecer a feição de seu filho em meio a sujeira e aquela barba desajeitada.

Seus coração disparou não pode conter a enxurrada de lágrimas que guardara todos esses anos para aquele momento, tentou erguer a voz chamando os empregados, mas lhe faltou a voz, o nó na garganta era amargo.

Sem esperar nem mais um segundo depois de ter certeza absoluta, aquele velho pai sai correndo em direção ao seu filho, que surgirá do mundo dos mortos, foi o mais rápido que seus joelhos lhe permitiram, filho desorientado se jogou nos braços do pai soluçando seu arrependimento, com coração cheio de culpa.
Os dois abraçados chorando, tentavam dizer alguma coisa para o outro, mas o choro não deixava.

Vergonha e culpa de um lado, felicidade e esperança do outro.

Faraó uivava de Saudades do seu antigo companheiro, batia suas patas nas costas do filho implorando um pouco de atenção.
O pai levantou o filho; lhe pareceu muito mais leve como de costume, colocou ele nos ombros e o carregou  porteira a dentro, gritando o nome de todos que poderiam estar perto.

— Rute!!! Maria!! , Jorge!! Venham!!!

O Pai continuou carregando o filho até a entrada da casa.

O filho tentava dizer alguma coisa.

— Pai, Desculpe, fui um estúpido, não sou..

O Pai interrompeu colocando a mão em sua boca.

— Rute venha aqui!! meu filho voltou.!!!

Mas o filho insistiu

— Pai ! ! Eu estava errado, eu insultei você e fiz tudo de errado contra Deus. Não sou mais dign…

Bem nessa hora o Jorge mordomo apareceu com um sorriso no rosto, o Pai gritou interrompendo a fala do filho

—Jorge prepare o melhor banho que você puder na banheira do meu quarto, depois vista ele com meu melhor terno de gala. Rute!! manda teus meninos matar o Cordeiro Gordo, mande alguém comprar carvão, chama os seus primos do samba pra tocar, que hoje vai ter churrasco completo, porque o meu mais novo voltou dos mortos, hoje ele voltou a existir.

O filho em prantos foi levado pelos empregados, os trapos que ele estava vestido jogaram no lixo, chamaram o melhor barbeiro da região para cortar seus cabelos e aparar sua barba.

Enquanto tomava banho deram água e frutas para o filho comer, pois o mesmo implorava por comida. Em seguida ele tentou não vestir o terno que seu pai trouxe da Itália, pois  só usava em festas solene, mesmo assim os empregados insistiram em cumprir as ordens do patrão.

Quando o pai viu seu filho arrumado e limpo chorou novamente, o beijou depois colocou em um lugar de destaque na mesa, o cheiro do churrasco já estava no hambiente.
Os músicos já estavam tocando o repertório favorito do Pai, o filho não estava acreditando em toda aquela recepção.

Enquanto o som rolava os parentes foram chegando a casa ficou cheia.

O mais velho voltava da longa caminhada das terras de reflorestamento, o seu relatório não era dos bons; descobrirá uma praga que estava apodrecendo as raízes das árvores, fora o pequeno foco de incêndio que devastou um terço do setor norte.

De longe viu a fumaça saindo da churrasqueira, viu os carros estacionado no gramado, a casa parecia cheia.

— Eita !!! Tá rolando um Festão — disse um dos funcionários que estava com o mais velho.

Todos começaram a se animar, e apressaram o passo. O mais velho ficou tentando lembrar de algum feriado ou data comemorativa, deixou escapar um sorriso imaginando que deveria ser seu aniversário, porém seu pai não fazia nenhum planejamento antes de o consultar, para toda aquela festa repentina tinha que ter um excelente explicação.
Os outros entraram correndo na casa, o mais velho desconfiado entrou por último, quando viu a casa lotada todos cantando, viu seu irmão mais novo, ao lado do seu pai, o menino estava com um rosto pálido mas feliz.

Aquela cena parecia impossível, começou a morder os dentes e bufar de ódio, saiu da casa bravo batendo os pés, foi andando inconformado, cheio de raiva.

Logo em seguida seu Pai lhe aparece.

— Vamos filho, lá dentro está melhor que aqui. — disse o Pai com carinho.

— Não é Justo isso!, esse menino pediu sua herança antes da hora e saiu pelo mundo, enquanto eu procurei te honrar em tudo que você mandava, tirei as melhores notas, nunca fiquei de PD, trabalhei feito um escravo debaixo do sol, e nem um dia de folga você me deu pra eu curtir com a galera — disse o filho furioso.

— Que isso Abel porque você está assim tão bravo?, Não faz essa careta.

— Agora que esse menino voltou, cansado de gastar o todo o seu dinheiro com as puta, você vai e mata o cordeiro da ceia de natal.

O pai olhou diretamente nos olhos do mais velho e disse: Meu primogênito, meu filho querido você nunca me deixou, tudo que é meu é seu, sempre foi, mas o seu irmão até ontem não existia, ele era um morto sem enterro, e agora ele está vivo, vivo e arrependido, isso exige um comemoração, se alegre também comigo, a família está completa novamente.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Velha sedutora

Você não tem culpa de ser tão velha.
Você não tem culpa de ser assim tão desajeitada.
Você não sabe como eu realmente queria gostar de você.
Você não culpa de exalar esse cheiro, vejo o quanto os outros te olhando com segundas intenções, você provoca seus desejos ou inveja.
Você não é feia, o problema é que você já nasceu assim, é assim você me engana, me seduz, o poder de te ter em minhas mãos é pura ilusão.
Você não tem culpa de insistirem num erro de fabricação, por tanto tempo assim.
Seus projetistas foram pioneiros, mas hoje você não passa de defeito ambulante.
Queria gostar de você, queria ter prazer em ter você.
Mas quando a próxima marcha não entra, e o acelerador grita em vão.
Quando o você ferve aquela água quente, obrigando a parar onde quer que esteja.
Quando me distraio segurando o volante e de repente involuntariamente você muda de direção.
Quando seus amortecedores transferem todo o impacto para o meu acento.
Quando faço mais força que o comum, para ver se a roda vira só mais um pouquinho.
Você demonstra que já está ultrapassada, um símbolo na memória de outras gerações que não se importavam com seu desconforto.
Um status que contribuiu para evolução dos automóveis.
Não obrigado Kombi.